Um dos grandes privilégios de participar das degustações da Bacco’s é ter contato com enólogos de casas proeminentes. E dessa vez não foi diferente. Jean Pascal Lacaze é o responsável pela criação do aclamado Domus Aurea, considerado por muitos o grande expoente da viticultura chilena.

Jean Pascal Lacaze

Com uma carreira de sucesso, Jean Pascal Lacaze trabalhou em lugares como o Chateau Pavie, ao lado de Patrick Valette e na Clos Quebrada de Macul, além de assinar uma coleção para a Naked Wine. Hoje, é o enólogo responsável pela butique Viña Peñalolén, de Ricardo Peña. Seus vinhos têm personalidade e falam por si.

7 perguntas e respostas de Jean Pascal Lacaze

Bacco’s: Quais os desafios e diferenças de trabalhar na França e no Chile?

Jean Pascal Lacaze: Na França, a cultura do vinho é bastante sólida e há grande apreço por certas regras. Muitas vezes, o que importa é o vinho, o terroir; se o consumidor não gosta do produto, é problema dele. No Chile, por outro lado, o vinho precisa ser bom, tem que vender bem. Essa visão da enologia é distinta.

Para mim, que venho da França e tenho esse gosto pela terra, tentar adapta-lo ao modo de fabricação chilena é interessante. Essa combinação é interessante: mesclar o conceito de um com a filosofia de outro. A França vibra pelo vinho, está em seu coração. No Chile, há a paixão, mas está um pouco dispersa. É uma paixão que está muito mais centrada na pessoa que produz o vinho, ela é a estrela. Na França, a estrela é o terroir.

B: Qual é a parte mais difícil em produzir vinhos?

JPL: A vinificação. A partir do momento em que há o corte da uva, não há como devolvê-la, independente dela estar madura o suficiente ou não. Escolher esse momento é crucial. Obviamente existe todo um parâmetro técnico que auxilia na decisão, mas não é suficiente. É uma escolha muito difícil.

Depois dessa etapa, a dificuldade reside em uma extração correta, em combinação com a concentração da uva. Quando a uva está muito madura, você é tentado a colocar muita extração, e ai reside o perigo. Ao passar do limite, o vinho pode perder a identidade do lugar.

Em resumo, julgar o momento exato da colheita, bem como essa extração da matéria-prima para reproduzir a identidade do lugar, isso é o mais difícil. Isso se faz em dois meses. Depois o vinho dorme em barrica por 15 meses e não passa nada, está feito.

B: Qual dos vinhos que você já produziu é seu favorito? O que faz dele especial?

JPL: Um vinho é sempre especial. O momento em que você cria um vinho é único. Mas Domus Aurea é a criação pela qual tenho paixão; ele me move e me comove. Talvez porque foi meu primeiro amor. Mas ainda assim, cada colheita é um vinho novo, não há comparação com nenhum outro.

B: O que você busca em seus vinhos? Qual seu objetivo?

JPL: Meu objetivo é transportar o terroir, com seus cheiros, imagens e clima para a garrafa. Esse sensorial é importante e o maior sucesso, na minha opinião, é conseguir transmitir isso para o vinho. Esse é um pouco meu talento. Existem muitos vinhos ótimos, mas vinhos com sentido de existir são poucos.

B: Qual sua dica para pessoas interessadas em aprenderem mais sobre vinhos?

JPL: Primeiro, esqueça o conceito de que vinho é somente para gente culta. Isso não é verdade. O vinho é para todos. Segundo, não existe um dicionário. O vinho é constância e memória; é frequentemente provar e colocar suas próprias palavras e sentimentos no que descreve. Me aterroriza quando uma pessoa degusta um vinho como o Domus e diz algo como “Ah! Cassis e amora”. Sim, é claro que há cassis e amora, esse é o Domus. Mas isso é o mesmo que se colocar em frente a um Picasso e dizer “amarelo, vermelho, linhas retas”. A pessoa que quer aprender sobre vinho tem que ultrapassar essa barreira cultural que querem impor os intelectuais. O vinho é para o prazer, o que importa é a emoção que ele transmite.

B: Nesse sentido de que o vinho transmite para cada um uma emoção diferente e impacta nas pessoas de forma diferente, o que você acha dos sistemas de pontuação como Robert Parker e Wine Spectator?

JPL: Todos criticamos as notas, mas acabamos dependendo delas. Afinal, uma das formas mais fáceis de vender um vinho é quando ele tem uma boa pontuação. É ai que reside a tentação de fazer vinhos que tenham esse apelo.

No mundo de hoje tudo tem que ser fantástico, extraordinário. O melhor. Por isso, sempre vai haver importância nas notas. Além do mais, com tanta variedade de marcas disponíveis no mercado, se a pessoa não se atreve o a buscar seu próprio parâmetro, vai esperar que alguém o faça.

O problema é quando a pontuação tem um efeito contrário. Por exemplo, as pessoas adoram o Azul, mas é ainda um trabalho recente. O que aconteceria se o apresentássemos à imprensa e ele recebesse uma má nota? Como isso impactaria na opinião das pessoas? Será que elas continuariam a achar o vinho bom? Eu acredito que o Domus já passou por essa etapa. Hoje em dia ele se consagrou de uma tal forma, que as pessoas continuam a comprá-lo, independente do que dizem as avaliações.

B: Para você, vinho é arte ou ciência?

JPL: Bom, é claro que há ciência, mas não é ela quem define a arte. É apenas parte do processo. E nós também. Não me sinto um artista, Ele está lá em cima. Sou apenas um assistente e tento fazer com que meus defeitos e qualidades resultem em algo honesto, íntegro, Não tenho interesse em ter uma coleção de vinhos bons, mas sim vinhos com sentido de existir, que possa comover as pessoas.

E assim encerramos esta maravilhosa entrevista com Jean Pascal Lacaze. Espero que vocês tenham gostado e postem aqui seus comentários, perguntas ou sugestões.

Até a próxima!